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19/02/2018

Em companhia das letras e da liberdade

Perfil – Eduardo Rocha Virmond

 

Por Maria Sandra Gonçalves

 

As memórias mais remotas de Eduardo Rocha Virmond são da infância vivida em Ponta Grossa, nos Campos Gerais. “Lá, me sentia dono do mundo. Não havia perigo. Certa vez eu, que vivia no Centro, estava na região da Nova Rússia. Um motorista de praça me viu e me levou para casa, alertando minha mãe para o fato de que eu estava muito longe para estar sozinho”, recorda. O curitibano nascido a 13 de janeiro de 1929, no número 111 da Rua Comendador Araújo, na altura em que hoje está construído o Hotel Deville, também viveu dias memoráveis na adolescência, no Rio de Janeiro, onde viu os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) desembarcarem depois da campanha vitoriosa na Itália, ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Na juventude, de volta à Curitiba natal, ele manifestou interesse por cursar Arquitetura na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Na capital paranaense, a monotonia do cursinho preparatório era quebrada com as reuniões no Café Belas Artes. Foi lá que o aspirante à arquitetura ouviu do jornalista Samuel Guimarães da Costa o conselho que orientaria sua vida: “Você, que não tem vocação para coisa nenhuma, vá estudar Direito!”.

Pilares

Guimarães da Costa não podia estar mais equivocado em seu diagnóstico. Se faltava ao jovem Eduardo o apreço pelas ciências exatas, transbordavam nele duas vocações: pelas letras e pela liberdade. Sobre esses dois pilares sólidos, ele tem edificado sua vida. As primeiras batalhas na advocacia foram combinadas com as madrugadas à frente da máquina de escrever nas redações do Diário do Paraná e da Gazeta do Povo.

Quando o assunto é literatura, Eduardo da Rocha Virmond não se faz de rogado. Garante que a literatura é condição sine qua non para o bom exercício da advocacia e vai desfiando a lista dos escritores prediletos e também a daqueles com quem já teve o prazer de conversar: Carlos Drummond de Andrade, Raymundo Faoro, Gilberto Freyre…

Nos anos 70, em um Congresso em homenagem a Pontes de Miranda organizado pelo advogado Galeno Lacerda, em Porto Alegre, Virmond foi convidado por um grupo de advogados do Paraná a ir visitar o escritor Érico Verissimo. “Eu disse que estava com preguiça e eles, claro, chamaram minha atenção perguntando: ‘quem você pensa que é para se recusar a ir vê-lo?´ Respondi de pronto: Sou aquele que vai com vocês ver o Erico Verissimo”, conta, divertindo-se com a lembrança. O saldo, diz, foi de pura admiração pela simplicidade com que o escritor recebeu o grupo ao lado da esposa e dos netos. “Saímos de lá boquiabertos com a camaradagem dele”, ressalta. Também valeu a pena, afirma, subir escadarias para visitar Gilberto Freyre em sua casa, no Recife. Ainda mais em visita acompanhada de Raymundo Faoro.

A vida de Virmond tem sido assim, pautada pela proximidade com os grandes autores. Se não os conhece pessoalmente, domina sua prosa e os conserva nas muitas e muitas estantes de sua casa. Não raro, encontra-se por lá edições e dedicatórias de dar inveja ao mais diligente alfarrabista.

Marcos

Imortal, ele presidiu a Academia Paranaense de Letras em 2010 e 2011. Também foi secretário de estado da Cultura e da Justiça. Em seu currículo não faltam outros importantes marcos da carreira jurídica. Virmond presidiu o Instituto dos Advogados do Paraná de 1973 a 1977 e a Ordem dos Advogados do Paraná de 1977 a 1979. Em 2009, foi agraciado com a Medalha Vieira Netto, a mais alta comenda da advocacia paranaense, pelo então presidente da OAB, Alberto de Paula Machado.

Para Virmond, a medalha carrega um componente extra: ele conviveu e trabalhou com Vieira Netto por quase duas décadas e com o patrono da advocacia compartilhou também o amor pela cultura. No discurso de agradecimento pela medalha, Virmond relatou aos presentes um dos momentos marcantes que viveu com Vieira Netto e mais um grupo de amigos. Foi um sarau dedicado à audição da Paixão Segundo São Mateus, de Bach, cujos quatro discos seu pai havia comprado. Munidos de Bíblias para que pudessem ler os recitativos, eles passaram horas maravilhados pela obra do compositor alemão.

Na vida de Virmond não há fronteiras entre a Cultura e o Direito. Letras e liberdade são suas permanentes companheiras.

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